A Lenda e a Primeira Menção
No ano de 1182, um cavaleiro chamado Dom Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós, caçava numa alta falésia junto ao mar, numa zona que hoje faz parte de Nazaré. Nesse dia, perseguia um veado em meio a um denso nevoeiro. O veado correu em direção à beira da falésia e o cavalo seguiu-o. Quando o cavaleiro percebeu que estava à beira do precipício, em perigo de morte, reconheceu o lugar: ficava mesmo junto a uma pequena gruta onde se encontrava uma imagem de Nossa Senhora a amamentar o Menino Jesus. Dom Fuas, sendo um guerreiro da época da Reconquista Cristã, invocou Nossa Senhora: "Mãe de Deus, ajudai-me!", e o seu cavalo, milagrosamente, parou mesmo na orla da falésia — salvando assim o cavaleiro de uma morte inevitável. Dom Fuas considerou aquilo um milagre. Este lugar passou a ser conhecido como o Bico do Milagre. Segundo a lenda, as marcas dos cascos do cavalo ficaram impressas na rocha, no local onde o cavaleiro mandou erguer uma pequena ermida, a "Capela da Memória", em honra deste milagre. Mais tarde, este lugar tornou-se um centro de peregrinação, e a imagem de Nossa Senhora, que se acredita ter chegado de Nazaré (cidade antiga da Galileia, no atual Israel), passando por Mérida, em Espanha, recebeu uma veneração especial. Daí o nome do local, ligado ao culto religioso.
O Desenvolvimento da Povoação da Nazaré
Até ao século XVI, a maior parte da população vivia em terrenos mais elevados — nas zonas da Pederneira e do Sítio. A parte costeira (atual centro da Nazaré, junto à praia) só começou a ser povoada de forma ativa no século XVIII, depois de as ameaças naturais, como inundações e tempestades, se terem atenuado. As pessoas puderam então tirar partido da localização costeira para a pesca, o comércio e o turismo religioso. A redução das ameaças naturais tornou-se possível graças aos seguintes fatores:
• A construção de quebra-mares e molhes para proteger o porto e os territórios costeiros do impacto destrutivo das ondas de tempestade e das marés. Graças a isso, os pescadores podiam fazer-se ao mar com maior segurança e guardar as embarcações junto à costa. A erosão costeira provocada pelas ondas diminuiu graças a essas barreiras.
• A drenagem dos pântanos através de canais e valas que desviavam o excesso de água para os leitos dos rios e para o mar, ajudou a reduzir a estagnação das águas, a diminuir a humidade e a baixar o risco de doenças transmitidas por mosquitos (como a malária).
• O reforço das margens e a construção de diques de pedra e terra impediram a erosão e a destruição da linha costeira. Isto contribuiu para estabilizar a costa, o que favoreceu a edificação de construções permanentes.
• A deslocação e expansão das povoações esteve associada à melhoria gradual das condições. Foi por isso que as pessoas começaram a construir as suas casas em zonas mais baixas, mais próximas do mar, na área da atual Nazaré costeira.
A Origem da Imagem de Nossa Senhora da Nazaré e a sua Viagem até Portugal
A história da imagem de Nossa Senhora da Nazaré é uma das mais antigas e interessantes lendas da tradição cristã portuguesa. Eis como se desenrolou:
Nazaré, Galileia (século I d.C.) Segundo a tradição, a imagem terá sido esculpida pelo próprio São José e pintada pelo evangelista São Lucas. A imagem representa Nossa Senhora sentada, com o Menino Jesus ao seu braço esquerdo.
Emigração para Espanha: Mérida Durante o período do cristianismo primitivo, a imagem terá sido levada para Mérida, uma das cidades mais importantes da Hispânia romana, onde foi guardada no mosteiro de Cauliniana.
Fuga aos Muçulmanos (século VIII) Quando os Mouros (muçulmanos) conquistaram a Península Ibérica no início do século VIII, um monge chamado Romano (Frei Romano) fugiu de Mérida com a relíquia para a proteger. Chegou à zona da atual Nazaré (na altura, uma região desabitada e selvagem), onde se instalou numa gruta de uma rocha isolada da costa atlântica, no local onde hoje se encontra o Sítio. A rocha erguia-se diretamente sobre o oceano e era de difícil acesso para os Mouros. Segundo a tradição, Frei Romano terá falecido pouco depois, mas conseguiu esconder a imagem na gruta, onde, mais tarde, em 1182, viria a acontecer o milagre com Dom Fuas Roupinho.